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     CÂNCER - CAPÍTULOS 18 a 20
     CÂNCER - CAP. 22




    JORNAL DO RN - PAULO TARCÍSIO CAVALCANTI
     


    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    CAPÍTULO 18

     

    Bem disse o salmista

     

    Na tarde do dia 27 de maio, meu astral estava tão elevado que a debilidade física resultante de mais de 40 dias sem me alimentar direito, pessoalmente, não me incomodava. Só algum tempo depois é que vim saber que o meu estado estava tão ruim, que eu me apresentava tão depauperado que a minha situação, minha fisionomia esquelética, chamava a atenção.

     

    Eu, porém, me sentia, literalmente, em estado de graça. De bem com a vida. Antevia resultados tão promissores da delicada cirurgia a que teria de me submeter no dia seguinte que, naquele instante, minha única vontade era satisfazer a necessidade de agradecer a Deus.

     

    Com efeito, em todo esse processo de tratamento, eu vinha contabilizando graças, muitas das quais me levavam à emoção e, de repente, me fizeram descobrir valores que, antes, não sei, se por egoísmo ou insensibilidade, não eram percebidos.

     

    São muitas as dádivas que todo ser humano recebe de Deus. Até então eu já contabilizava uma ou outra e, confesso, já me dava por satisfeito e agradecido. Considerava que, nunca, ele havia me faltado e que sempre fora misericordioso diante das minhas múltiplas e variadas falhas.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h26
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico anterior 

     

    Mesmo agora, entendo que ainda não enxergo em toda a sua real dimensão a manifestação da generosidade divina (na realidade infinita e, por conseguinte, humanamente impossível de ser dimensionada), e, refletindo sobre a parábola dos dinares, reconheço o quanto o meu débito para com Ele está elevado, para constatar, em seguida, dele nunca ter recebido uma cobrança sequer.

     

    Pois é – constatava constrangido por reconhecer as minhas falhas – tanto recebemos de Deus. Na maioria das vezes, egoisticamente, nem o percebemos, até pelo fato de que, na realidade, nem cobrança ele nos faz. No entanto, está sempre lá, esperando-nos, pronto a nos cobrir com o manto de sua divina provação.

     

    No curso dessa meditação, eu me sentia pequeno e ingrato diante de Deus.

     

    Diante dessa constatação, por mais que torcesse para que minha hora não tivesse chegado, reconhecido, não tive como esconder o resignado sentimento de que, mesmo se os meus dias estivessem contados, se não passassem dali, eu não tinha como agradecer tudo o que dele já recebera ao longo de toda minha vida, desde o dia em que nasci.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h25
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico acima

     

    O que mais poderia pedir? Até o perdão – que eu pedia – era como se não precisasse pedir, pois ele se antecipava com a sua bênção e com a sua misericórdia.

     

    Esses pensamentos não traziam consigo nenhum sinal de pessimismo ou de desânimo. Agora, relembrando-os decorridos mais de cinco meses, eu me vejo todo confiante e feliz diante da sólida convicção de que nada me faltaria.

     

    Ou seja: independente das falhas e fraquezas inerentes à nossa condição humana, eu estava ali vendo, concretamente, que o recado dado pelo salmista há milhares de anos, não era mesmo para ser esquecido: “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará”.

     

    A predominância desse sentimento espiritual sobre a realidade material foi fundamental para que os riscos e as dificuldades naturais da cirurgia fossem, se não esquecidos, acentuadamente relegados.

     

    Assim, hoje, eu não consigo lembrar, por exemplo, se em algum instante daquela quarta-feira, passou pela minha cabeça a dúvida que o dr. Shaha deixara nas duas primeiras consultas: eu teria que me operar, mas se isso valeria a pena, somente algum tempo depois da cirurgia é que se iria saber.

     

    Do mesmo modo, eu não lembro ter deixado me abater pela perspectiva de que poderia despertar da anestesia com seqüelas na boca, que ficaria torta, ou com as pernas paralisadas.

     

    Pelo contrário, tão confiante e seguro estava que, na quinta-feira, 28 de maio, eu é que amanheci acordando Graça e tia Dulce, cheio de esperança: “Vamos acordar. Está na hora de ir para o Hospital”.

     

    Conclusão do capítulo 18



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h24
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    CAPÍTULO 19

     

    Aguardando a cirurgia

     

    A caminho do hospital, no táxi, naquele 28 de maio de 1998, não pude deixar de me emocionar, ao imaginar a expectativa que, naquele momento, estavam vivendo, a milhares de quilômetros de distância, os meus familiares, especialmente os meus filhos. Poti Neto, o caçula, fizera há pouco, no dia 20, 12 anos.

     

    Eu parecia vê-los, à distância, tensos, preocupados, dominados por momentos de expectativa e de incerteza, procurando forças, é certo, na sua fé.

     

    Parece que ainda estou ouvindo o que, na véspera, me disse Iolanda, a mais velha, por telefone:

     

    - Amanhã, quando for entrar no hospital, se benza e tenha fé em Deus que vai dar tudo certo.

     

    Mas, eu me preocupava com a possibilidade de que eles estivessem sofrendo mais do que eu. “Será que eles imaginam que estou confiante, sem medo, cheio de esperança? Tomara que sim, meu Deus”.

     

    Há pouco, quase chegando à Avenida Iorque, veja numa esquina, supostamente aguardando um táxi, a correspondente da Rede Globo, em Nova Iorque, Ana Paula Padrão. Coincidência? Ver, mesmo à distância, uma celebridade brasileira em terras estranhas pode ser até que tenha algum significado. Não deu pra imaginar que significado poderia ser. (Hoje, quando releio estas linhas nove anos depois, alimento a impressão de que, na realidade, ela me deu sorte).

     

    Agora, quando o táxi me deixa no Memorial, não apenas me benzo, como sugerira minha filha no telefonema da noite anterior, como aperto, com força e fé, a medalha de Nossa Senhora, com que a amiga Terezinha Vilar me presenteou no dia do meu embarque para os Estados Unidos.

     

    Fomos encaminhados a um saguão de espera, onde aguardaria a chamada para me dirigir ao Centro Cirúrgico. Não sei bem quanto tempo se passou. Mas, na realidade, se toda espera é massacrante, imagine esta.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h22
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico anterior

     

    Foram momentos de tensa expectativa.

     

    - Pode ser que eu esteja vivendo os últimos momentos de minha vida – imaginei, enquanto percorria com a vista toda a dimensão da sala, focando cada rosto, cada gesto, cada movimento humano ao alcance dos meus olhos.

     

    Depois, procurei viajar com os meus pensamentos e raciocinava que, não tivesse sido o contratempo do adiamento da cirurgia, toda aquela ansiedade, aquela inquietante e desconfortável espera que vivia naquele momento, seriam coisa do passado: eu já teria sido operado há uma semana e, se tudo tivesse dado certo, naquele dia estaria recebendo alta do hospital.

     

    Mas, não; agora é que tudo iria começar.

     

    Vivia essas divagações, quando fui despertado por um chamado:

     

    - Mr. Cavalcanti!...

     

    Era uma enfermeira que vinha ao meu encontro trazendo uma cadeira de rodas para me conduzir. Subimos, se não me engano , ao 19o andar. Ali, numa ante-sala, voltei a ser deixado sozinho (com tia Dulce, pois só era permitido uma acompanhante), até ser levado para uma espécie de enfermaria, onde passaria pelas últimas providências pré-operatórias.

     

    Era uma ampla sala, com várias camas, muitas das quais ocupadas, em duas fileiras, separadas uma das outras por cortinas. Pareceu-me que fiquei na última do lado direito de quem entra.

     

    Alguns instantes depois, uma enfermeira procura se informar do nível de conhecimento que tinha sobre a complexidade da cirurgia a que ia me submeter.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h20
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico anterior

     

    Eu repeti: a cirurgia destinava-se à extirpação de um tumor maligno no palato; o médico me dissera que tentaria fazer a cirurgia pela própria abertura da minha boca; a previsão era de que esse procedimento durasse, aproximadamente, duas horas. Ele não pudera garantir, antecipadamente, o êxito da operação, da qual eu poderia sair, ainda, com algumas seqüelas.

     

    Falei sobre o risco de ficar com a bica torta, de ter as pernas paralisadas e de sofrer uma pneumonia durante a fase de convalescença.

     

    Do que ela me disse, eu só consigo lembrar de que, após a cirurgia, eu não iria poder me alimentar pela boca. Por isso, durante a operação, eu já receberia um tubo especial a fim de me alimentar pelo nariz.

     

    Aquilo para mim era novidade. Na verdade, em nenhum outro momento, eu questionara como era que iria conseguir me alimentar, nos dias imediatos ao da extirpação do céu da minha boca.

     

    Agora, não posso negar, que o incômodo provocado por aquela informação de que teria tubos enfiados pelo nariz me perturbou um pouco. Mas, logo procurei dar a volta por cima: “Isso não deve ser insuportável” – imaginei, lembrando que já tirara de letras os exames que implicavam na colocação, pelo nariz, de micro câmeras de TV para permitir aos médicos verificar a situação em que se encontrava o tumor na parte superior do palato.

     

    Por fim, a enfermeira me disse que, ali mesmo, eu seria anestesiado antes de ser conduzido para a mesa de operação.

     

    Foi ela saindo e entrando uma religiosa. Rezamos juntos. Ela tinha uma cara solidária, cristã, aparentemente compreensiva da delicadeza do momento e,  talvez por isso, marcada pela tristeza e pelo sofrimento. Quando terminamos de rezar, eu lhe disse em “portunhol”:

     

    - Irmã, muito obrigado por sua atenção e por esse gesto de piedade. Mas, pode acreditar: de mim não precisa ter pena. Foi Deus quem me trouxe para ser curado aqui”.

     

    Conclusão do capítulo 19



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h17
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    CAPITULO 20

     

    A hora da anestesia

     

    Depois que a irmãzinha saiu, eu fiquei me questionando se não havia sido auto-suficiente demais ao lhe dizer que, comigo, não precisava se preocupar, pois tinha a certeza de que dali sairia curado, pois – algo me dizia - esta era a vontade de Deus.

     

    Quem seria eu para falar daquela maneira, arvorando-me a condição de intérprete da vontade de Deus?

     

    Eu senti que tinha pisado na bola. Infelizmente, a freirinha não estava mais ali para que eu pudesse lhe pedir desculpas. Martirizava-me a preocupação de que a minha auto-suficiência pudesse ter assumido uma conotação agressiva a quem só havia querido ajudar.

     

    Imaginei, entretanto, que ela terá me compreendido e, certamente, não se sentiu ofendida com a afirmação que lhe havia feito, após suas contritas e generosas orações: “Comigo a Sra. Não precisar se preocupar. Foi Deus quem me trouxe até aqui, exatamente, para ser curado”.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h08
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico anterior

     

    Foi, sem dúvida, um desabafo típico de quem, há mais de um mês, estava vivendo sob a tensão provocada pela notícia de que estava com câncer. Todos, inclusive eu, me olhavam como se, na realidade, pudesse estar vivendo os meus últimos momentos.

     

    Acontece que, após o choque inicial, até como forma de não permitir que a doença me rendesse, criando dificuldades para o tratamento, eu passara a desenvolver o raciocínio já exposto de que a gente só morre na hora.

     

    Ou seja: não é a idade nem a doença que matam. É a hora. Dessa ninguém escapa.

     

    Eu estava doente. Mas, a minha hora podia estar chegando ou não. Se eu me rendesse, daí pra frente era como se não conseguisse mais viver. Aguardaria, prostrado, o momento definitivo da partida, que podia não estar tão próximo assim, quanto a gravidade do câncer poderia estar indicando ou levando a supor.

     

    Em vez disso, graças a Deus, tive forças para encarar essa realidade de forma diferente. “A minha hora pode até está chegando. Mas, vai me encontrar de pé” – repetia para mim mesmo várias vezes por dia.

     

    A partir daí, uma série de cosias começou a acontecer de uma forma tão espontânea que, para mim, só existe uma explicação: a graça de Deus está presente nesse processo de tratamento e tudo vai dar certo. “Se ele criou todas as condições para que eu viesse me tratar nos Estados Unidos, com um especialista de renome mundial, é porque a minha hora não chegou e ele vai me salvar”.

     

    Comecei a alimentar a expectativa de que, pela misericórdia divina, ainda poderia ter uma longa caminhada a realizar, apesar do câncer.

     

    Daí a fórmula desafiadora com que me dirigi à generosa freirinha do serviço religioso do Memorial Hospital, quando, após contritas orações, vi no seu rosto a imagem sofrida e amarga de quem achava estar participando de uma despedida final.

     

    Continua no tópico abaixo



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h07
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    CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

    Continuação do tópico anterior

     

    “Irmã, comigo não se preocupe. Foi Deus quem me trouxe até aqui e foi exatamente para ser curado”. De fato, faltou-me completar que, se por acaso eu não resistisse à cirurgia, estava certo de que a generosidade de Deus também haveria de me acompanhar até o momento definitivo do juízo final, compadecendo-se de minhas culpas e falhas humanas.

     

    Estava envolvido nesses pensamentos quando chega a enfermeira trazendo-me a bata hospitalar que me vestiria a partir desse momento. Fui orientado a tirar toda a roupa e qualquer outra coisa que estivesse conduzindo, inclusive a aliança. Dei o último e firme aperto na medalha de Nossa Senhora Milagrosa antes da cirurgia.

     

    Todos os meus pertences – roupa, carteira de documentos e a aliança – foram colocados em um saco plástico comum. Pela que entendemos – eu não sabia patavina de inglês e tia Dulce, que me acompanhava, sob o impacto do momento, não deu muito atenção às últimas informações que nos transmitiam – ficamos pensando que aquele material só nos seria devolvido por ocasião de minha alta. Pelo menos – repito – foi isso o que entendi naquele momento. Eu não poderia imaginar os contratempos que esse mal-entendido me provocaria no dia em que saí do hospital e que, com certeza, narrarei mais adiante.

     

    É que, instantes depois, a enfermeira voltou para me aplicar uma injeção no bumbum e, no segundo seguinte, eu já estava nocauteado. É a última coisa de que me lembro antes do despertar da cirurgia. Não me lembro nem de ter visto a enfermeira ir embora.

     

    Conclusão do capítulo 20



    Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h06
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