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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO 11
Os primeiros exames
Saí da minha segunda consulta, numa terça-feira (24 horas depois da primeira), com a cirurgia antecipada para a quinta-feira seguinte, quarenta e oito horas depois, portanto.
Do próprio consultório do dr. Shaha, fui encaminhado para outro setor do Memorial Hospital, a fim de marcar a série de exames pré-operatórios a que teria de me submeter. Tudo ficou acertado para o dia seguinte – a quarta-feira, véspera da cirurgia – 21 de maio de 1998.
Este seria um dia especial para mim – além dos exames, a recomendação de que poderia levar um dia normal na alimentação e nas atividades. Mas, só até a meia noite. Daí pra frente, porém, nada de alimentação. Nem água eu poderia beber, pois estaria, efetivamente, começando a fase pré-operatória.
Os momentos seguintes foram de muita expectativa. Eu imaginava que a cirurgia seria o momento mais difícil do tratamento a estava doido para me ver livre dela.
A minha força interior – garças a Deus- só fazia crescer à medida em que o tempo passava. Claro que eu estava perfeitamente consciente dos riscos que estava correndo, de quanto poderiam ser dolorosos os próximos momentos, mas me considerava absolutamente convicto de que a tudo encararia de cabeça erguida e – mais do que isso – de que o procedimento cirúrgico – por mais traumático que pudesse parecer – seria coroado de êxito.
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Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h37
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Pela minha frente desfilaram momentos de extrema dor – física e emocional – vividos em outras ocasiões, não apenas por mim, como também por familiares e amigos e que, na ocasião, pareciam intermináveis, insuperáveis, insuportáveis mesmo, e que, constatamos mais tarde, terminaram passando. Aquele seria mais um.
Eu me sentia muito bem por pensar assim e não me cansava de agradecer a Deus por me dar esse entendimento. E não tinha dúvidas de que essa força não era minha. Era a presença dele, transformando em fortaleza a minha debilitação.
O normal – raciocinava até como forma de realçar a proteção divina (o que me dava mais força ainda) – seria que estivesse tremendo de medo. Mas, não, eu estava ali, firme. Posso estar vivendo os meus últimos momentos. Mas, vou em frente.
Ressentia-me, é verdade, do fato de não conhecer ninguém que já tivesse passado pela mesma experiência e que pudesse me orientar. Eu me perguntava: E o dia seguinte? Como devo me comportar, o que devo fazer, em que posso ajudar na minha recuperação?
Agora, porém, quatro meses depois da cirurgia, enquanto faço esse relato, eu me pergunto se, até isso, também, não foi providenciado por Deus que, cada vez mais me convenço, escreve certo por linhas tortas. E, se naquela ocasião, eu tivesse conhecido um medroso, um pessimista, alguém sem fé, que só me transmitisse pessimismo, intranqüilidade, insegurança e incerteza?
- É – reconheço agora – é melhor ter sido como foi.
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Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h36
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Na quarta-feira, 20 de maio de 1998, logo cedo, estava no hospital para iniciar a série de exames pre-operatórios. Foram vários, Aqueles tradicionais – eletro, urina, sangue, etc, outros cujos nomes não guardei, a não ser do primeiro, chamado catskan – aparentemente o mais delicado. É uma espécie de grande radiografia ou de uma tomografia computadorizada. Você é, literalmente, colocado dentro de uma máquina – imagino eu para ser fotografado por dentro – e durante alguns minutos fica ao dispor dela, inclusive com o corpo sofrendo algumas reações – desagradáveis, incômodas, mas absolutamente suportáveis.
Sobre tudo isso, o paciente é informado, antes de ser iniciado o exame. E mais, que ao concluí-lo, poderia sair cambaleante e que deve passar o restante o dia ingerindo bastante líquido, para evitar uma espécie de desidratação.
Graças a Deus, esse eu tirei de letra. Só que, antes de passar aos demais exames, uma notícia desagradável: complicações de ordem burocrática relacionadas com o orçamento do tratamento e o seu pagamento, não apenas os suspenderam, como determinaram o adiamento da cirurgia por, no mínimo, uma semana.
A própria funcionária que trouxe a ordem para suspensão dos exames, nos acompanhou naquele mesmo instante, até o Serviço Internacional para acertar a questão financeira do tratamento.
Passei por momentos inesquecíveis de dúvida, apreensão e medo. Pela primeira vez iria tratar, de forma direta, da questão do custo do tratamento. E se eu não tivesse condições de assumi-lo? Foram de muita provação os momentos que se seguiram.
Conclusão do Capítulo 11
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 20h35
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CAPITULO 12
Decepção e revolta
O fato da cirurgia ter sido adiada, no mínimo, por uma semana, teve em mim dois efeitos no primeiro momento: decepção e revolta.
Decepção porque eu sabia que teria de enfrentar uma operação muito dolorosa e arriscada, de onde sairia com uma única certeza: o pós-operatório será extremamente penoso.
Além da dor, durante algum tempo eu teria enormes dificuldades pra me alimentar; ou melhor, durante algum tempo eu teria de me alimentar artificialmente, uma vez que o céu da minha boca, onde surgira o tumor cancerígeno, seria extirpado. Com toda certeza, eu não poderia me alimentar pela boca durante, pelo menos, alguns dias.
Eu já fora informado, inclusive, de que, provavelmente, sairia da cirurgia com um tubo especial por onde me alimentaria, através do nariz. Tudo bem.
Mas, como aceitara correr o risco da cirurgia (infelizmente, nem todos os pacientes assumem a disposição de correr todo o risco, previamente anunciado), quando mais cedo ela fosse realizada, melhor, pois, mais cedo eu me livraria, também, de suas eventuais seqüelas físicas.
E olhe que, apenas de “ouvir dizer”, eu conhecia o que viria pela frente em termos de “seqüelas físicas” do pós-operatório.
Ainda bem que, naquela ocasião, eu ainda não havia lido um panfleto que apanhara, na portaria do hospital, informando sobre a existência de “tumores malignos” e “benignos” e que, a principal diferença entre os dois, é que as células cancerígenas (que formam os tumores malignos) proliferam com incrível rapidez.
Eu imagino hoje – outubro de 1998, quase cinco meses depois – o golpe que teria sentido naquele momento, se já tivesse conhecimento dessa informação. Ou seja: porque não dispunha naquela hora dos recursos necessários, as células cancerígenas teriam mais uma semana para ficarem se multiplicando dentro do meu corpo. Graças a Deus eu só vim saber disso, como já disse, algum tempo depois – já em casa (no Brasil), quando procurei traduzir o material que havia recebido em inglês.
O outro efeito, percebido ao chegar ao Serviço Internacional, naquele mesmo dia, para saber o que estava acontecendo, foi a decepção com a frieza com que – me pareceu naquele momento tão delicado de minha vida – como os norte-americanos encaram a vida humana (alheia).
Para eles foi muito fácil dizer, simplesmente, que a cirurgia estava adiada e que, só depois que eu arranjasse todo dinheiro para pagar todas as despesas previstas, poderia voltar que eles estavam prontos pra me atender.
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Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 10h00
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Continuação do tópico anterior
Quer dizer: é como se eles me dissessem: “Sem dinheiro, você vai morrer e nós não temos o que fazer”.
Ainda bem que, exatamente naquele instante, chegavam à minha procura, a dra. Míriam, uma senhora maranhense, advogada, que trabalhava no Consulado em Nova Iorque – e uma amiga sua – Iara – que me ajudaram bastante na negociação que se travou em seguida e que, até então, era dificultada pelo meu desconhecimento da língua inglesa.
Naquele instante, eu já dispunha de mais da metade dos recursos necessários ao custeio da despesa total e, para não atrasar a cirurgia, propus que eles recebessem a metade, comprometendo-me a pagar o restante uma semana depois. Não aceitaram. Tinha que ser tudo adiantado.
Aquilo, no primeiro momento, me doeu bastante. Na verdade, se eu dispusesse de condições e de conhecimento de outro local onde pudesse receber idêntico tratamento, naquele mesmo dia teria ido embora.
O que me doía não era o fato de ser cobrado. Na verdade, eu vinha estranhando que não me tivessem colocado a questão do custo total do tratamento desde o primeiro instante.
Eu tinha apenas uma pequena noção do custo – que me fora dada, em Natal, pelo dr. Ricardo Curioso – e estava preparado para enfrentá-lo, graças a Deus e à solidariedade permanente e decisiva da minha família, principalmente, e de muitos amigos.
Com o tempo, porém, essa revolta foi passando. Alguns amigos me explicaram que, na verdade, eles (os americanos) tinham um certo receio de atender brasileiro para receber o pagamento depois... Por mais difícil que fosse para mim, como paciente, entender aquela situação, a ela acabei me acomodando e até concordando com eles que tinha de ser assim mesmo.
- Adiantava “estrebuchar”? – questionava-me.
Afinal – passei a admitir nas minhas reflexões – o tratamento que eles ofereciam, na realidade, tinha um alto custo e quem dele precisava, na realidade, tinha de pagar.
Graças a deus, conseguimos vencer em tempo récorde a parafernália burocrática exigida nos Estados Unidos para qualquer transação “cash” acima de 10 mil dólares. Já na sexta-feira anterior à segunda em que seria comemorado o “Memorial Day”daquele ano (1998), o pagamento estava depositado na conta do Memorial Hospital, no City Bank.
Dei um suspiro de alívio quando recebi de Tia Dulce essa informação e, encarando um final de semana prolongado, pois a segunda-feira do “Memorial Day” seria feriado – imaginei que, até a quinta-feira seguinte, nova data marcada para a cirurgia, para mim, cada dia teria um século de duração.
Para enfrentá-lo sem maior trauma, foi fundamental a convicção de que Deus não permitiria que nada me faltasse. E, além disso, as constantes manifestações de solidariedade e carinho com que familiares e amigos me contemplavam, lá nos Estados Unidos, pessoalmente ou por telefone.
Conclusão do capítulo 12
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 09h58
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPÍTULO 13
Babosa, alho e limão
Os dias de espera da cirurgia, que eu temia me parecessem ter a duração de séculos, não foram assim tão desagradáveis.
Eu os aproveitava fazendo longas caminhadas e passando horas seguidas na Catedral.
Olhando para dentro de mim mesmo, consciente de que estava com um tumor maligno no céu da boca e de que (quem sabe?) a hora de minha morte talvez estivesse muito próxima, eu sentia uma vontade ansiosa de estar na igreja e poder agradecer a Deus por tudo que ele me dera e, ao mesmo tempo, pedir perdão por todos os meus erros e falhas.
Num momento como o que estava vivendo, pelo menos comigo foi assim, foi inevitável consolidar a convicção de que a vida não se resume à passagem pela Terra.
Eu sabia que não precisava falar nada. Não falava, mas sentia que Deus me via e ouvia e que esse sentimento reforçava a minha fé, a minha confiança de que a cirurgia que estava para fazer seria coroada de êxito.
Isso, apesar da impressão que sentia de que o tamanho do tumor aumentava e de que as dores por ele causadas estavam mais intensas. Na verdade, não sei se era pura impressão ou se era a realidade.
Eu continuava a tomar – contra as dores – o medicamento que pedira à dra. Maria José França Montenegro (minha concunhada, Nil), no dia em que a procurei julgando que estava com dor de dente.
Mas, por outro lado, desde que chegara aos Estados Unidos, não vinha comendo o dente de alho que eu próprio me receitara, algumas horas antes de receber o resultado da biópsia que identificara o meu câncer. Por que?
Foi o seguinte: No dia em que iria receber o resultado da biópsia – 4 de maio de 1998, visitou-me um casal amigo que estava em apuros. Gente simples, do interior, que me conhece de longa data e que, naquele momento, não podia imaginar o drama interior que eu estava vivendo.
Contei-lhes, até como forma de demonstrar que, por maior que fosse o momento de angústia e/ou preocupação que estivessem vivendo, o que não valia a pena era “esquentar” a cabeça.
Foi então que Preta me disse:
- Esse problema aí – falou referindo-se ao tumor que acabara de lhe mostrar – você resolve em 24 horas.
E revelou-me que, num bairro da periferia de Natal, tinha um curandeiro tão bom que eu não precisava, sequer, dizer qual o meu problema. Ele me curaria com as suas orações e com um “remédio” que ele próprio preparava.
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 09h55
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Continuação do tópico anterior
Ao terminar sua narrativa, inclusive com exemplo de cura em sua própria família, arrancou-me o compromisso de que iria procurá-lo.
Acontece que só voltei a lembrar dele algumas horas depois, quando, em casa, repousava à espera da hora de ir apanhar o resultado da biópsia. Foi quando me ligaram do laboratório informando que o resultado, previsto para aquela tarde, só sairia na tarde do dia seguinte.
Aí me lembrei do “charopado” do curandeiro de minha amiga Preta. Não pude procurá-lo. Mas, ao receber a ligação do laboratório anunciando o adiamento do resultado, eu me indaguei: “Por que não preparo o meu próprio charopado?”
E decidi: pedi para Graça me preparar a porção milagrosa a que sempre recorria, especialmente quando estava gripado: um dente de alho cortado, misturado com limão e mel de abelha. Tomei-a e, quinze minutos depois, senti um efeito espetacular. Daí pra frente, todos os dias, quando não ingeria junto com o limão, passei a comer, pelo menos, um dente de alho.
A noite do dia seguinte, aos familiares e amigos que encheram minha casa tão logo a notícia do resultado da biópsia se espalhou, procurei tranqüilizar com a notícia da minha descoberta.
Para completar, foi nessa mesma ocasião, que recebi a primeira porção de babosa, que me foi presenteada, através de minha irmã, Ana, pelo empresário Luís Amorim, dono de uma fábrica em São Gonçalo.
Agora, em Nova Iorque, a babosa eu estava tomando. Mas, o dente de alho, cuja falta eu vinha sentido há alguns dias, somente depois do adiamento da cirurgia é que tia Dulce conseguiu encontrar no comércio local e eu voltei a consumir.
Conclusãodo Capítulo 13
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 09h54
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