CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO 8
Cirurgia marcada
Fiquei com a convicção de que o dr. Shaha devia ser, de fato, um instrumento de Deus para a minha recuperação.
Mas, eu precisava arrancar dele alguma esperança, pois me martelava a advertência que me havia sido feita de que, tendo que extirpar o palato, um problema seria irreparável: mesmo que conseguisse sobreviver, restava-me o risco de ficar com a voz, no mínimo, distorcida.
Então, lhe perguntei:
- Doutor, e se tudo der certo, mesmo perdendo o palato, quais as chances que eu tenho de voltar a ter uma vida normal, especialmente no trabalho, onde preciso usar muito a minha capacidade de falar?
- Todas – respondeu o dr. Shaha, de uma forma que me pareceu muito generosa.
- Deus é pai – pensei emocionado. Ou seja: o médico me prevenira de que nada poderia me assegurar antes da cirurgia. Mas, se o câncer que me atingira ainda pudesse ser totalmente extirpado, eu voltaria a viver.
- Então, vamos em frente – disse-lhe.
A cirurgia foi marcada para a segunda-feira seguinte. Ou seja: daí a uma semana.
O próprio dr. Shaha me levou, pessoalmente, até a clínica dentária do hospital, onde fui atendido pelos doutores Ian M Zlotolow, chefe da Clínica, e George F. Wong, que participariam da cirurgia, como responsáveis pela confecção da prótese que me daria um palato artificial e me livraria do risco de ficar, permanentemente, fanho.
Por enquanto, fui liberado com a recomendação de ficar atento a um chamado do hospital para uma segunda consulta e uma bateria de exames pré-operatórios.
Apesar da sensação que eu tinha de que todos os meus passos estavam sendo guiados por Deus; de que sua misericórdia me cobria de bênçãos naqueles instantes de sofrimento; não obstante a confiança que o dr. Shaha me inspirava, eu saí daquela primeira consulta um tanto quanto decepcionado.
Era como se eu achasse que a graça era grande demais para que fosse verdade. Eu não a merecia – julgava.
Fiz de tudo para que nem Graça, nem tia Dulce percebessem. “Tudo vai dar certo”- dizia-lhes. E “raciocinava” em voz alta para que elas pudessem entender minha otimista confiança: pela minha fé, Deus não permitiria que eu tivesse vindo a Nova Iorque para nada, ou o que era pior: pra morrer.
Intimamente, porém, eu era mais realista. Confesso que não sei descrever, com precisão, o que, na realidade, sentia naqueles momentos. Algo como uma mistura de fé, com incerteza, insegurança, pavor e medo.
De um lado, procurava encarar com a maior naturalidade possível, o fato de que, na verdade, estava indo para o tudo ou nada. Iria fazer uma cirurgia da qual poderia sair recuperado ou mutilado. Isto se não morresse.
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 08h59
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