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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

CAPITULO 3

 

Partida para incerteza

 

Marinheiro de primeira viagem, embarcamos para os Estados Unidos (eu, minha mulher – Graça, e minha tia, Dulce) sem termos amarrado, pelo menos, a primeira consulta com o especialista para o qual fora encaminhado no Memorial Hospital, de Nova Iorque.

 

Nós chegaríamos às vésperas de um final de semana e, conforme a informação que o hospital nos dera, via Internet e por telefone, o médico a quem eu devia procurar – o dr. Ashok Shaha – estava fora da cidade naqueles dias, participando de um simpósio em outro ponto dos Estados Unidos. Em Miami, se não estou enganado.

 

Mas, de uma certa forma, tal é a pressão emocional e psicológica sofrida por um paciente novato de câncer, que eu preferi, literalmente, correr, ir embora, ir pra longe dos meus. E olhe que, para mim, sair de casa é um tormento. Prá longe, então, nem se fala.

 

Desta vez, tinha mais um agravante. Teria que haver despedida. E que despedida – daquela que pode ser a última.

 

Nossa Senhora! Foi um verdadeiro pesadelo. Você olhar para o seu filho – o meu mais novo, Poti Neto, ainda estava prestes a fazer 12 anos; olhar para o seu irmão, seu neto, seus amigos, na dúvida, sem saber se haveria outra vez, não é brincadeira.

 

Muitas vezes, durante o tratamento, aquele momento de despedida – que podia ter sido a última – insistia em voltar a minha lembrança. Mas, confesso: nunca de forma sofrida, desesperada. Triste, é verdade, mas de forma muito terna; de muita saudade, é claro; mas cheia de esperança e de amor. Se eu pudesse, juntava todo mundo num bolo só, familiares e amigos, e ficaria com todos abraçado, como se, num instante, a gente pudesse recuperar o tempo que perdemos – ao logo da vida – sem estar assim, juntinho, de todos a quem amamos.

 

Mas. Não me arrependia de ter partido.

Eu imaginava que, quanto mais cedo superasse esse momento, quanto mais cedo me afastasse, seria melhor. Até porque eu não tinha a menor idéia de saber até onde eu me sustentaria, diante da doença, procurando demonstrar, para todos os meus, que tinha plena confiança numa improvável, mas possível recuperação.

 

Hoje, o pior já tendo passado, vejo que, naquelas circunstâncias, eu estava coberto de razão, precipitando aquela “partida pra incerteza”.

 

Continua no tópico abaixo



Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 11h24
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE

Continuação do tópico anterior

 

Agora que conto a história, é muito bom. Mas, naquele dia, só a força que Deus me dava, como também as generosas e doces companhias de Graça e tia Dulce, me fizeram capaz de resistir à dor e à incerteza daquele momento de partida e de separação.

 

No avião, o pavor de voar, a saudade, a tensão da dúvida, a expectativa do desconhecido, eram amenizadas pela convicção (pelo menos aparente) de que eu me sentia bem melhor, graças à babosa que, pelas bênçãos de Deus, havia chegado às minhas mãos. Eu me esforçava tanto pra não desmoronar que, às vezes, parecia, pra mim (pelo menos) que acreditava mesmo na regressão do tumor e que esta seria percebida, caso fosse feita nova biópsia.

 

Enquanto cruzava o Atlântico, cheio de esperança, apesar de toda incerteza, imaginava o sofrimento dos que ficaram e pensei o quanto teria sido melhor se ninguém tivesse precisado saber; e se a minha doença tivesse se mantido sob sigilo pessoal. Assim, teria me livrado dessa pressão e – quem sabe? – com ela eu poderia ter convivido sem a necessidade de uma cirurgia, nem de me afastar de pessoas tão queridas. Eu não estava me sentindo melhor só com o tratamento à base da babosa e da mistura do alho com mel de abelha e limão?

 

Por outro lado, apesar de toda dúvida, de toda incerteza, era muito sólida a confiança que eu procurava ter no tratamento que iria receber. Além da apresentação que fora feita pelo dr. Ricardo Curioso, corroborava essa confiança o depoimento de um velho e querido amigo potiguar que, naquele momento, se encontrava em Nova Iorque, com certeza sofrendo muito mais do que eu, acompanhando o tratamento de um filho, por sinal, no mesmo hospital pra onde eu estava sendo encaminhado – José Adécio Costa.

 

Aliás, foi dele o primeiro estímulo que recebi ao notificá-lo sobre o que ouvira do meu médico no dia em que saiu o resultado da biópsia. Ele foi enfático: “Venha pra cá”.

 

Esse estímulo foi reforçado pelo conteúdo da “home page” do hospital, estampando em sua abertura uma “declaração dos direitos do paciente”, naquilo que passou a representar, para mim, o primeiro referencial do que se poderia esperar de uma unidade de saúde do chamado primeiro mundo – respeito ao paciente.

 

E José Adécio, cuja assistência nos meus primeiros momentos em Nova Iorque, a partir da recepção no Aeroporto e nos contactos iniciais com o hospital, foi fundamental, endossava esse entendimento, com base na atenção que vinha sendo dispensada ao seu filho, Eduardo (*), há vários meses.

 

* - Lamentavelmente, com pouco mais de 15 anos de idade e após mais de um ano de tratamento em Nova Iorque, o jovem Eduardo faleceu alguns meses depois – em janeiro de 1999.

 

Conclusão do capítulo 3



Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 11h16
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